Canto da sementeira
Semear
Semear no ar
Semear cabeça no ar
Semear mãos no ar
Semear pés no ar
Semear no ar
Semear ar no ar
Semear ar
Semear o ar pelo ar
Semear ar pelos ares
Semén
Semén
-------------------------
Canto della semina
Seminare
Seminare testa in aria
Seminare mani in aria
Seminare piedi in aria
Seminare in aria
Seminare aria in aria
Seminare aria
Seminare l’aria
Seminare l’aria per l’aria
Seminare aria per le arie
________________________________________________________
enfrento o vento
com a força do vento
que invento
enfrento o ar
com a força do vento
que invento
enfrento a morte
com a força do vento
que invento
invento a vida
com a força da morte
que enfrento
invento a força
da vida
que enfrento…
-------------------------
Affronto il vento
Con la forza del vento
Che invento
Affronto l’aria
Con la forza del vento
Che invento
Affronto la morte
Con la forza del vento
Che invento
Invento la vita
Con la forza della morte
Che affronto
Invento la forza
Della vita
che affronto…
________________________________________________________
Escrito no cajado (pau):
Enfrento a morte, as pequenas mortes diárias, a vidinha, o tédio, o conformismo, a resignação, os dias todos iguais. Enfrento o destino. Não tenho destino. Vou por aí a desafiar-me. A desafiar o destino.
-------------------------------------------------------------------------------
Affronto la morte, le piccole morti quotidiane, la vituccia, la noia, il conformismo, la rassegnazione, i giorni tutti uguali. Affronto il destino. Non ho destino. Vado in giro a sfidarmi. A sfidare il destino.
________________________________________________________
(voz solo atrás do altar):
Cabeça perdida. Cabeça que se perdeu do corpo. Cabeça que se emancipou do corpo. Corpo ausente. Cabeça suspensa. Cabeça autónoma. Cabeça livre do corpo. Cabeça só voz. Voz só cabeça. Çã (sã) Cabeça que pensa pela voz. Que pensa a voz. A voz na cabeça. Cabeça suspensa. Cabeça-voz. Voz na cabeça suspensa. Cabeça que é voz. Cabeça que fala.
Cabeça cantante. Cabeça separada da tirania do corpo. Cabeça fugida do corpo habitual. Voz livre do corpo. Cabeça vozeadora. Cabeça ressoadora. Cabeça perdida.
-------------------------------------------------------------------------------
Testa perduta. Testa che si é persa dal corpo. Testa che si é emancipata dal corpo. Corpo assente. Testa sospesa. Testa autonoma. Testa libera dal corpo. Testa solo voce. Voce solo testa. Testa che pensa con la voce. Che pensa la voce. La voce nella testa. Testa sospesa. Testa-voce. Voce nella testa sospesa. Testa che é voce. Testa che parla. Testa cantante. Testa separata dalla tirannia del corpo. Testa fuggita dal corpo abituale. Voce libera dal corpo. Testa vociante. Testa risuonante. Testa perduta.
________________________________________________________
Espero aqui. Sobre a água. Espero aqui. Sobre a água. Pés na água. Mar só para mim. Espero sobre o mar. Espero que aconteça algo, que venha alguém. Porquê????? O quê???? Porquê???? Quem?? Quem??? O quê????
-------------------------------------------------------------------------------
Aspetto qui. Sull’acqua. Aspetto qui. Sull’acqua. Piedi in acqua. Mare solo per me. Aspeto sul mare. Aspetto che accada qualcosa, che venga qualcuno. Perché????? Cosa????? Perché???? Chi??? Chi??? Cosa???
________________________________________________________
Puriificar. Ficar puro . Puro ficar ar. Ar puro. Ficar Pu-ri-fi-ca-ção. Puri fi cação. Purifi ca ção. Puriiiii.fica.ção!!!! (sílabas…)
Limpar. Limpeza. Limpureza. Pureza. Pobreza. Limp-amar. Libertar. Libreza. Limpo. Limpó. Pó!
Exorcisar. Exorcismo. Ex-orcismo. Ex or. Exxxoooosismo. Ex in ex in si si smo. Expulsar. Eis! Eis! Pul! Expulsão. Explosão. Izur si zar. Ex-or, ex pul, ex plu!!!!!
-------------------------------------------------------------------------------
Purificare. Restare puro. Puro restare aria. Aria pura. Pu-ri-fi-ca-zione. Puri fi cazione. Purifi ca zione. Puriiii-fica-zione!!!! (sillabe…)
Pulire. Pulizia. Pulirezza. Purezza. Povertá. Puli-amore. Libertare. Libertá. Pulito. Pulitolvere. Polvere!
Esorcizzare. Esorcismo. Ex-orcismo. Es or. Essssssosisma. Ex in ex in si si smo. Espellere. Ecco! Eco! Pul! Espulsione. Esplosione. Ezor ci sar. Ex- or. Ex-pul! Ex plu!
________________________________________________________
(O significado da vida e da morte)
Um livro num armário de vidro
Um livro, num armário de vidro, de livros
Um livro num armário, de livros, de vidro
Um livro num armário de vidro, para livros
Um livro num armário de livros, para livros.
Um armário de vidro para livros com um livro
Um armário de livros para livros com um livro
Um armário de vidro, com um livro, para livros
Um armário com um livro, para livros, de vidro
Contando os livros do armário de vidro:
Contando os livros no armário de vidro e de livros.
Um dois três…. (até dezassete)
Dezasseis livros num único armário de vidro.
Dezasseis livros num armário de livros, de vidro
Dezasseis livros num armário de vidro, de livros
Dezasseis livros num armário de vidro e de madeira!
Dezasseis livros num armário de madeira e de livros
Dezasseis livros, num armário de livros e de madeira e de vidro.
Dezasseis livros dentro de um armário de vidro e de madeira, dentro de um armário para livros de papel com palavras dentro.
Dezasseis livros dentro de um armário de livros, dentro de um armário de vidro para livros de papel com palavras dentro.
Dezasseis livros de papel dentro de um armário de madeira e vidro, com palavras dentro dos livros.
Dezasseis livros com palavras dentro, dentro de um armário de vidro e de madeira, dentro de um armário para livros de papel.
Lendo o título do livro e dos livros dentro do armário de vidro e madeira com palavras dentro:
Il significato della vita e della morte
-------------------------------------------------------------------------------
(Il significato della via e della morte)
Un libro in un armadio di vetro
Un libro in un armadio di vetro, di libri,
Un libro in un armadio, di libri, di vetro
Un libro in un armadio di vetro, per libri
Un libro in un armadio di libri, per libri.
Un armadio di vetro per libri con un libro
Un armadio di libri per libri con un libro
Un armadio di vetro, con un libro, per libri
Un armadio con un libro, per libri, di vetro.
Contando i libri dell’armadio di vetro.
Contando i libri nell’armadio di vetro e di libri.
Uno, due ,tre ,quattro, cinque, sei, sette, otto, nove, dieci, undici, dodici, tredici, quattordici, quindici, sedici, diciassette…
Diciassette libri in un unico armadio di vetro.
Diciassette libri in un armadio di libri, di vetro.
Diciassette libri in un armadio di vetro, di libri.
Diciassette libri in un armadio di vetro e di legno!
Diciassette libri in un armadio di legno e di libri.
Diciassette libri, in un armadio di libri, di legno e di vetro.
Diciassette libri dentro un armadio di vetro e di legno, dentro un armadio per libri di fogli con parole dentro.
Diciassette libri di fogli dentro un armadio di legno e vetro, con parole dentro i libri.
Diciassette libri con parole dentro,dentro un armadio di vetro e di legno, dentro un armadio per libri di fogli.
Leggendo il titolo del libro e dei libri dentro l’armadio di vetro e di legno con parole dentro:
Il significato della vita e della morte
________________________________________________________
O cão do texto
1.
Os actores Stefano e Paola
perderam ontem o rebanho:
um carneiro e uma ovelha.
Os animais amanheceram
degolados.
Talvez tenha sido obra
de um cão famélico,
disse Stefano.
2.
Trago no saco de viagem
uma peça de teatro para memorizar:
São Francisco dialogando com um cão
que à viva força
quer ser frade menor franciscano
3.
Terá sido o meu cão
(o cão da peça para representar)
que se desprendeu do texto
para dizimar o rebanho
dos meus amigos?
4.
Sobreviverei a esta dúvida?
Bazzano e Bolonha, 26/10/09
________________________________________________________
Abadia
Na abadia franciscana de Monteveglio
há um sistema inovador
de chamar os frades para as confissões:
com um simples toque numa campainha eléctrica
pode solicitar-se frei Gregorio
com dois toques + pausa + um toque
convoca-se o frei Stefano
mas com um toque + pausa + dois toques + pausa
quem acudirá será frei Domenico.
O método parece funcionar
e bem:
com uma pausa + três toques + silêncio
+ 1 toque demorado (à volta de quinze segundos)
eu próprio pedi que Frei Giovanni della Annunziata
ali me confessasse.
Desgraçadamente Giovanni della Anunziata
responde a toques + silêncios + pausas
mas não conhece a minha linguagem
feita de palavras que se chamam umas
às outras
e que frequentemente me chamam a mim.
Monteveglio (Bolonha), 24/10/09
________________________________________________________
A empregada
A empregada do restaurante
deste hotel
que é muito morena
e tem cabelos longos
que lhe chegam ao cóccix
(sonora palavra, esta, que nem parece portuguesa)
contou-nos esta manhã
que lhe perguntam amiúde
(insalubre palavra, esta, que nem parece portuguesa)
se por acaso é corsa.
E ela lá vai respondendo
que não não é corsa
nem sequer portuguesa
como eu por graça
insinuei há pouco.
Neste exacto momento
a rapariga morena
que não é corsa
(nem sequer sei o seu nome)
atirou-se ao pescoço
de um cliente regular.
Não sei por que conto
aqui este facto
mas não é todos os dias
que vejo uma rapariga
de longos cabelos negros
que lhe chegam ao cóccix
e que amiúde julgam ser
corsa
atirar-se às goelas de um cliente
gordo
que palita os dentes.
Não é todos os dias
que uma rapariga que não é
corsa
se atravessa num poema meu
mais os cabelos longos
que lhe chegam ao cóccix.
Bazzano (Bolonha) 23/10/09
-------------------------------------------------------------------------------
La cameriera del ristorante
di questo hotel
che è molto scura
e ha i capelli lunghi
che le arrivano al coccige
(sonora parola, questa, che non sembra neanche portoghese)
ci ha raccontato questa mattina
che le domandano spesso
(malsana parola, questa, che non sembra neanche portoghese)
se per caso è corsa.
E lei risponde sempre
di no, che non è corsa
e neanche portoghese
come io per gioco
ho insinuato poco fa.
In questo esatto momento
la ragazza scura
si è gettata al collo
di un cliente abituale.
Non so perché racconto
qui questo fatto
ma non è cosa di tutti i giorni
che veda una ragazza
dai lunghi capelli neri
che le arrivano al coccige
e che spesso pensano sia
corsa
gettarsi al collo di un cliente
grasso
che si stuzzica i denti.
Non è cosa di tutti i giorni
che una ragazza che non è
corsa
capiti in un poema mio
con i suoi capelli lunghi
che le arrivano al coccige.
(tradução do português para o italiano por Raffaella Piazza)
________________________________________________________
As horas
Uma freira franciscana
que sabe latim, grego, árabe
e hebraico
vive naquele convento
e tem óculos e mãos demasiado
brancas
convidou-me a ir ouvi-la cantar
nas cerimónias das dezassete
horas.
Disse-me também
que se deita às vinte e uma
horas
e que se levanta às três
horas
da manhã
que é quando eu começo
a dormir
em dias de sobressalto.
Chama-se Maria Sara
faz traduções e pinta ícones
religiosos
nas horas vagas
entre as horas
de rezas e cânticos.
Hoje
um amigo meu
levou-lhe ovos frescos
postos por galinhas madrugadoras.
Maria Sara
a esta hora
lava os dez pratos do jantar
com enfado
com enfadonha gestualidade
indiferente à hora adiantada
e ao implacável correr
das horas.
Amanhã outro galo cantará
pensa ela
finalmente
agora que despertou
para a realidade.
Bazzano (Bolonha), 22/10/09
-------------------------------------------------------------------------------
Una suora francescana
che conosce latino, greco, arabo
e ebraico
vive in quel convento
e ha gli occhiali e mani troppo
bianche
mi ha invitato a sentirla cantare
alla cerimonia delle cinque
del pomeriggio.
Mi ha anche detto
che va a dormire alle nove
di sera
e che si alza alle tre
del mattino
che è quando io comincio
a dormire
nelle serata agitate.
Si chiama Maria Sara
fa traduzioni e dipinge icone
religiose
nelle ore libere
tra i momenti
di preghiera e i cantici.
Oggi
un mio amico
le ha portato uova fresche
deposte da galline mattiniere.
Maria Sara
a quest’ora
lava i dieci piatti della cena
con fastidio
con fastidiosa gestualità
indifferente all’ora tarda
e all’implacabile trascorrere
delle ore.
Domani un altro gallo canterà
pensa lei
finalmente
ora che si è svegliata
per la realtà.
(tradução do português para o italiano por Raffaella Piazza)
________________________________________________________
Da vida e da morte
No oratório de Oliveto, perto de Monteveglio,
esquecidos (corrijo, “perdidos”)
num armário com portas de vidro,
encontrei (corrijo, “descobri”)
dezassete exemplares de um livro
chamado (corrijo, “intitulado”)
“Il significato della vita e della morte”
de autoria de (corrijo, “escrito por”)
Cecilia Impera, uma freira franciscana
que viveu muitos anos na Índia
(corrijo, “que vive em frente deste oratório,
no convento do século XI, no outro lado da rua”).
Ainda há pouco, há pouco tempo,
(corrijo, “há cinco minutos”),
cruzou-se comigo (corrijo, “acenou-me”).
e não me falou da Índia
e tão pouco do significado da vida e da morte
(corrijo, “do significato della vita e della morte”).
Lembrar-se-á ainda
destes livros perdidos
(corrijo: “esquecidos”)
que descobri (corrijo, “encontrei”)
num armário com portas de vidro
num oratório de Oliveto, perto de Monteveglio?
Tenho as minhas dúvidas (corrijo, “duvido”) !
Amanhã de manhã
(corrijo, “de manhãzinha”),
quando ela me entregar
as duas chaves de ferro do oratório
oferecer-lhe-ei (corrijo, “devolver-lhe-ei”) um exemplar
do seu livro sobre os hindus
e sua identificação com o Absoluto
(corrijo, “do seu livro sobre o significado da vida e da morte, escrito em 1995”).
Ela, passo apressado, rir-se-á
de mim e do meu interesse
(corrijo, “interesse”)
por livros esquecidos
(corrijo, “perdidos”)
em armários de portas de vidro
esquecidos e perdidos
em oratórios que atravessam o tempo.
Oliveto (Bolonha), 21/10/09
-------------------------------------------------------------------------------
Nell' oratorio di Oliveto, vicino a Monteveglio,
dimenticati (correggo, “ perduti”)
in un armadio con le ante di vetro,
ho trovato (correggo, “ho scoperto”)
diciassette esemplari di un libro
chiamato (correggo, “intitolato”)
“il significato della vita e della morte”
Dell’autrice (correggo, “scritto da”)
Cecilia Impera, una suora francescana
che ha vissuto molti anni in India
(correggo, “che vive davanti a questo oratorio,
in un convento del secolo undicesimo, dall’altra parte della strada”).
Ancora poco fa, poco tempo fa,
(correggo, “cinque minuti fa”),
ci siamo incrociati (correggo, “mi ha fatto un cenno”).
E non mi ha parlato dell’India
e neanche del significato della vita e della morte
(correggo, “del significato della vita e della morte”).
Si ricorderà ancora
di questi libri perduti
(correggo, “dimenticati”)
Che ho scoperto (correggo, “ho trovato”)
in un armadio con le ante di vetro
in un oratorio di Oliveto, vicino a Monteveglio?
Ho i miei dubbi (correggo, “dubito”)!
Domani mattina
(correggo, “di prima mattina”),
quando lei mi consegnerà
le due chiavi di ferro dell’oratorio
le offrirò (correggo, “le restituirò”) un esemplare
del suo libro sugli Indù
e la loro identificazione con l’Assoluto
(correggo, “del suo libro sul significato della vita e della morte,
scritto nel 1995”).
Lei, a passetti veloci, riderà
di me e del mio interesse
(correggo, “interesse”)
per libri dimenticati
correggo,(“perduti”)
in armadi con le ante di vetro
perduti e dimenticati
In oratori che attraversano il tempo.
(tradução do português para o italiano por Raffaella Piazza)
________________________________________________________ |